Entre diagnósticos e poesia: O que chamamos de loucura?
- elouise farias
- 8 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: há 4 dias

Nise da Silveira e sua imensa contribuição à percepção de saúde mental
Por Elouise Farias | Psicóloga
A loucura como pergunta viva
O que chamamos de loucura? Essa pergunta atravessa a clínica, a história da psicologia e, sobretudo, a experiência humana. Nem sempre o que nomeamos como desorganização psíquica é apenas um erro a ser corrigido; muitas vezes, é um chamado da alma por escuta. Nise da Silveira nos lembra que, por trás dos diagnósticos, existem pessoas tentando expressar algo que ainda não encontrou forma. A loucura, nesse sentido, pode ser menos um desvio e mais uma linguagem que ainda não aprendemos a ouvir.
Imagens que falam quando as palavras falham
No trabalho de Nise, a arte surge como via simbólica fundamental. Pinturas, modelagens e imagens arquetípicas emergem como pontes entre o inconsciente e o mundo. Para a psicologia analítica, essas imagens não são aleatórias: elas expressam conteúdos profundos da psique quando a palavra já não dá conta. Símbolos aparecem como poesia da alma, não para serem traduzidos rapidamente, mas para serem habitados com cuidado.
Uma leitura junguiana da “loucura”
Jung compreendia muitos estados chamados de patológicos como tentativas da psique de se autorregular. Quando o inconsciente irrompe de forma intensa, o ego pode se sentir ameaçado. É aí que surgem as experiências que assustam, confundem e, muitas vezes, são rotuladas como loucura. No entanto, sob esse caos aparente, pode existir um movimento de individuação em curso, um esforço da psique para integrar sombra, dor e aspectos rejeitados da própria história.
Quando o sofrimento encontra o cotidiano
Crises profundas não acontecem apenas em contextos extremos. Elas aparecem no esgotamento silencioso, na sensação de perda de sentido, nas mudanças bruscas de identidade após rupturas ou adoecimentos. Quantas vezes nos perguntamos se “há algo errado conosco” quando, na verdade, estamos atravessando um limiar? A experiência humana é feita de momentos em que o velho já não serve e o novo ainda não nasceu — e esse intervalo costuma ser desconcertante.
Morte simbólica e possibilidade de renascimento
A psicologia simbólica nos ensina que transformação exige morte. Não uma morte literal, mas o fim de estruturas internas que já não sustentam a vida. Quando esse processo não é acolhido, ele pode se manifestar de forma intensa, confusa, fragmentada. A escuta, o vínculo e o cuidado — tão defendidos por Nise da Silveira — oferecem continência para que essa travessia não seja vivida apenas como colapso, mas também como possibilidade de reorganização e renascimento psíquico.
Entre diagnósticos e poesia
Talvez o desafio não seja abandonar os diagnósticos, mas não reduzir o sujeito a eles. Entre classificações e protocolos, existe uma dimensão poética da experiência psíquica que pede respeito. A loucura, quando olhada apenas como falha, perde sua complexidade; quando escutada simbolicamente, pode revelar sentidos profundos sobre a condição humana. Permanecer com a pergunta, sem pressa de resposta, já é um gesto de cuidado.
Se este texto tocou algo em você, talvez exista uma pergunta pedindo espaço. A psicoterapia oferece um campo seguro para escutar o que emerge, sem pressa de nomear ou corrigir, respeitando o tempo e a singularidade de cada processo.
✧ Com alma,
Elouise Farias
Psicóloga
61 999064654 | @elouisepsi



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